Idolatria e Perseguição no Mundo Otaku

Texto: Alexandre Nagado

Ser otaku (ou otome, a versão feminina) no Brasil e no Japão possui significados diferentes e não tem necessariamente nada a ver com ser fã de mangá e animê, como ficou definido aqui. O otaku original é produto de uma sociedade rígida e altamente controlada e repressora como é a japonesa.  Muitos acabam tendo em algum hobby sua válvula de escape e a isso dedicam suas vidas de modo excessivo. No mundo pop, os artistas encaram, além dos fãs e admiradores mais tradicionais (ou “normais”), os chamados otakus idólatras, aqueles que vivem em função de seus ídolos de forma doentia. E isso leva a comportamentos perigosos em alguns casos extremos. Quando um ídolo pop se casa ou anuncia namoro, por exemplo, é comum que sua companheira ou companheiro receba ameaças de morte.

Algumas gravadoras exigem que seus artistas sejam celibatários, apenas para manter aceso o sonho dos fãs. O otaku idólatra se sente traído se sua musa revela ter uma vida social ou amorosa. A dubladora, cantora e atriz Aya Hirano (Death Note,Suzumiya Haruhi), quando começou a posar para fotos eróticas, dar declarações picantes e virou assídua frequentadora de colunas de fofoca, começou a perder trabalhos e a ganhar ódio de outrora fãs. Esse nicho das dubladoras é um filão bastante explorado dentro da indústria do animê. É no Japão que os dubladores ganham um destaque como não existe em país algum.

Atuando na adaptação de obras estrangeiras, mas principalmente colocando suas vozes em animês, os artistas chamados de “seiyuu” (dublador) começaram a ganhar as atenções da mídia depois do estouro da Patrulha Estelar (Yamato), no primeiro anime boom, o fenômeno de popularidade que impulsionou toda a indústria de animações no Japão no final da década de 1970.

Dubladoras são tratadas como deusas por causa da voz angelical e envolvente que muitas colocam em suas personagens. Na cabeça do fã idólatra, é como se a dubladora fosse a versão em carne e osso da heroína, sua alma e sua personalidade. Mas há uma categoria de artistas no Japão que é vista e concebida para ser objeto de adoração e idolatria. São as idols, cuja tradução grosseira para “ídolo” não mostra o significado que o termo tem em seu país.

Uma típica idol é geralmente atriz, cantora e modelo. Muitas também se tornam gravure idols, modelos que posam para luxuosos livros e revistas estampando fotos com roupas da moda, trajes de banho e lingeries, sendo que muitas são meras adolescentes. Suas entrevistas são bastante controladas, o que elas vestem, suas opiniões, caras e bocas são minimamente planejadas. E todas elas são “criadas” para serem reverenciadas como bonecas vivas.

Quase 30 anos atrás, a cantora Mari Iijima cantou músicas e dublou a heroína Lynn Minmay no clássico Macross. Para fugir da pressão da indústria, se mudou para os EUA onde desenvolveu uma carreira modesta, mas ela preferiu isso a ter sua vida controlada pelos fãs e empresários.

Revistas especializadas em ídolos – como a Voicha (Shinko Music Entertainment Co.) – estampam fotos e entrevistas com dubladores e esses ganham status de estrelas dentro de nichos de mercado. O destaque maior vai para as garotas e algumas são realmente bonitas e com carreira paralela como atrizes ou cantoras. Mas mesmo as que não se encaixam no padrão de beleza corrente ganham superprodução para deixarem os otakus idólatras babando.

Vídeos são feitos com elas, onde é comum que a dubladora fique falando com a câmera (para o otaku sentir que a musa olha para ele), convidando-o a um passeio, a conhecer sua casa e fazendo refeições com ele, em clima de constante flerte e total sedução com voz e olhar. É como um encontro virtual, ou ao menos é assim que esses produtos – populares nos anos 1990, são vendidos. As artistas se beneficiam dessa estrutura, mas têm que manter essa aura de anjo virginal a povoar os sonhos de marmanjos que nunca tiveram uma companhia feminina real. E entre os otaku idólatras, há os stalkers – perseguidores – que causam arrepios em suas vítimas. Alguns invadem as casas, fazem coisas obscenas, enviam ora cartas de amor ora ameaças de morte e em alguns casos, obrigam a artista a se afastar do meio tamanho o tormento que eles trazem.


Recentemente, foram registradas muitas situações constrangedoras envolvendo integrantes do coral pop AKB48 em eventos de encontro com fãs (geralmente com fotos e aperto de mãos). Segundo denúncias das próprias integrantes, alguns otakus aproveitaram a proximidade na hora do autógrafo, foto ou cumprimento para dizerem obscenidades ou tentarem tocá-las de modo mais afoito. Isso provocou protestos e indignação de artistas e empresários da banda.

Muitas dessas garotas estão apenas no colegial ainda, são menores de idade, mas posam de biquíni e lingeries provocantes para promover a banda. São bonecas usadas pela indústria, que irá descartá-las sem o menor peso na consciência quando não convencer mais a carinha de virgem sonhadora de olhos arregalados. Ainda meninas, são jogadas ao estrelato e depois ao anonimato. Algumas conseguem se manter como atrizes de novelas – osdoramas –  outras se casam e viram donas de casa e algumas caem no mercado pornográfico. Poucas conseguem consolidar uma carreira ao longo dos anos, combinando talento, jogo de cintura e equilíbrio emocional. A maioria desaparece na multidão.

Como o índice de suicídio entre artistas é grande no Japão se comparado a outros países, dá para se imaginar como é viver entre a pressão para se manter no mercado – para ser descartado depois – e preservar a sanidade perante os fãs dos mais variados tipos. É o preço a se pagar em um sistema que incentiva e explora o fanatismo e a idolatria, onde muitos artistas são tratados como meros produtos de vida efêmera.

Confira mais informações no SenpuuCast 41: Fãs de Anime Vs Fãs de Tokusatsu, onde Fire, Mozenjaa e Alexandre Nagado debatem sobre esse assunto.

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Vulgo Mozart Gomes é o Fundador , administrador e idealizador do Senpuu. Designer Gráfico, Mozenjaa é o responsável por todas as mudanças no layout do Senpuu, tanto as boas quanto as ruins. Fã de tokusatsu desde a era manchete, resolveu consumir diariamente todo o seu amor pelo tokusatsu, criando o Senpuu.

9 comments

  1. Alexandre Nagado novamente acertando em cheio .

  2. Ou quase; se referir como “otome“ a uma otaku feminina é uma coisa do Brasil mesmo. Lá no Japão, quando não se chama uma de otaku, é de fujoshi.

    No mais, bom trabalho, Nagado!

  3. Muito boa essa materia,com ela,podemos ver a principal diferenças os Otakus do japão para os Otakus do Brasil.
    no Brasil,otaku e,geralmente aquele cara que gosta de anime e mangas,vai para eventos e se diverte,mais,mesmo assim,tem uma vida social,tem namorada,sai com os amigos da escol e faz coisas normais, já no Japão,os otakus(aqui,eu falo de Otakus de animes,pois existem outros tipos)são geralmente NET´s,que são pessoas que ñ vão a escola e nem tem trabalho e são sustentados pelos pais,e ficam o tempo todo livre.
    e é isso que faz as coisas ficarem preocupantes,se eu começasse a agir como um NET,minha mãe me dava um tapa e ia mandar eu estudar, já no japão,parece que os pais tem medo dos filhos,por isso eles deixam eles ficarem assim,como eles começam a ficar longe do convívio social,começam a achar que qualquer coisa dita pro uma mulher já e uma cantada,quer um exemplo,no japão,um vídeo de uma mulher,se jogando aguá de biquíni e sorrindo para a câmera por 10 minutos já pode ser considerado pornografia.
    no caso da AKB48,seiyuu e IDOLS,vejo que os 2 casos tem uma culpa,vamos pegar por exemplo a musica Heavy Rotation do AKB48 (link:http://www.youtube.com/watch?v=lkHlnWFnA0c&feature=relmfu),CARA,VC QUER QUE UM OTAKU VEJA ISSO E ACHE QUE TODAS ES 48 GAROTAS ESTÃO QUERENDO ELE?
    e eu estou falando isso pq eu gosto da musica do AKB48,mais,acho q isso e MUITA apelação,cara,tem garotas nesse grupo com 14 ANOS,14,eu tenho 15 e já consigo ver que isso e errado para uma menina de 14 anos,pq o pai dela q deve ter uns 30 ñ consegue ver isso.
    mais,a também a parcela de culpa dos NET´s e dos Otakus,eles tem que viver a vida deles, saírem, arranjarem uma namorada e tocarem as suas vidas,eu já tive um período que eu tava quase virando um NET e um desses Otakus maniacos ao estilo japonês,sabe oq me tirou disso,meus amigos, comecei a falar mais com eles,começamos a sair mais,e hoje nem quero mais saber disso de virar um NET.
    só para terminar esse comentário,se tiver algum NET ou Otaku maniaco lendo isso,sai dessa vida,não estou falando para vc parar de ser um Otaku,mais saia um pouco, vá para o cinema,tente arrumar um encontro com uma garota legal,viva sua vida como um Otaku normal
    (e quem sabe vc ñ conhece mais otakus nessas suas saídas ;^))

  4. Alexandre Nagado

    Não, Raphael Soma, você está equivocado. “Fujoshi” é como se referem às moças que gostam de mangás yaoi ou Boys Love. O termo não se aplica, em hipótese alguma, a fanáticas por animê, games ou cantores. E o termo otome existe sim, apesar de não ter se popularizado. Tanto é que existe o livro Otome Zukan – The Otaku Girls Encyclopedia, lançado no Japão. Agora, é verdade que otome não é um termo conhecido como otaku. Otaku, na verdade, não tem gênero e o termo otome surgiu como parte de um movimento que ganhou força entre muitas garotas, de criar uma classificação mais graciosa, sem o ranço que otaku já carrega.

    Espero ter esclarecido.

  5. Não estou completamente equivocado, então. Estive lá (Japão) faz pouco tempo em contato com essa cultura, e de vez em quando é usado o termo fujoshi para as “otakas”. Não é muito comum, mas pode vir a virar um padrão futuro.

    Espero ter esclarecido ainda mais. Abraços!

  6. Fujoshi é um termo que é usado para classificar garotas que gostam de yaois e boys lover e até esse nome é um termo perjorativo lá no japão, mas como esse tipo de garotas estão crescendo por isso que é mais conhecido do que otome

  7. Alexandre Nagado

    Raphael, talvez você tenha tido contato com uma ala que deseja popularizar o termo fujoshi de modo abrangente. Talvez isso aconteça um dia, mas a tentativa mais notável de classificar as otaku femininas até hoje é com a palavra otome. Neste link, você pode ver a capa do livro “Otome Zukan”:
    http://nagado.blogspot.com/2011/09/boletim-sushi-pop-9.html

    É importante frisar que o termo otome é mais reconhecido fora de guetos do que fujoshi. No momento em que escrevo, fujoshi ainda é o termo mais usado para garotas que gostam de yaoi e afins. Fujoshi é uma definição como “moça estragada”, tem uma conotação bem mais pejorativa até do que otaku.

    Veja aqui:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Yaoi_fandom
    Há um tópico sobre fujoshi.

    Claro que, se você esteve no Japão há bem pouco tempo e diz que encontrou fujoshis que dizem que fujoshi é o correspondente a otaku para garotas, saiba que pode ter encontrado exceções, não o que corresponde à regra geral. Pelo menos não ainda. Mas eu duvido que fujoshi venha a ser aceito de modo genérico, como aconteceu com otaku. Como disse, a carga pejorativa é muito maior.

    Por isso, peço cautela ao postar informações que podem confundir mais as pessoas.

    Abraços!

  8. O mesmo vale para você, meu caro. NUNCA afirmei que o que eu disse virá a ser uma regra geral. Apenas não neguei a possibilidade. Foi apenas um caso que notei por lá. Não precisa fazer uma tempestade em copo d`água…

    Pessoalmente não sou muito favorável a usar o termo otome, da mesma forma que tu afirmastes em entrevista ao JBox quanto ao uso do termo Toku. Mas cismar com isso seria o mesmo que se queixar das pessoas que pedem uma Coca em vez de Coca-Cola. É só uma nomenclatura mesmo.

    E, não me leve a mal, mas responsabilidade para se dar informar o público é algo que aprendi desde que comecei a atuar como blogueiro há 5 anos. Me senti bem ofendido com sua última frase, mas sei que não foi intencional. Só fica o registro, pois vai que alguém se sinta insultado e reaja de maneira mais exaltada em outra ocasião…

    Por fim, desculpe se isso pareceu um flaming, de longe não era minha intenção. Fico no aguardo de novos artigos…que contestarei
    se discordar também, hehe, brincadeira^^

    Abraços!

  9. Alexandre Nagado

    Raphael, você escreveu no começo:
    [Ou quase; se referir como “otome“ a uma otaku feminina é uma coisa do Brasil mesmo. Lá no Japão, quando não se chama uma de otaku, é de fujoshi.] Foi isso que eu achei que daria margem a pensarem que fujoshi = otaku feminina. E não é regra geral, sabemos disso.

    Por isso, começamos o debate. Você tem 5 anos de blogueiro. Eu tenho 23 de profissão, sendo 18 anos escrevendo profissionalmente (sendo pago pra escrever). Eu sou humano, e nesse tempo dei muitas bolas fora, ainda mais no começo de carreira. Por isso me dei o direito de dar um alerta, pois tenho experiência para tentar explicar certos aspectos, como deixar claro que algo que é aceito hoje, pode não ser amanhã e que as coisas mudam com o tempo.

    Não havia motivo para se sentir ofendido. Bem como não há motivo para seu alerta de que alguém pode reagir de maneira mais exaltada contra mim. Um já disse que ia quebrar minha cara por causa de tokusatsu, acredita nisso? Estamos debatendo aspectos da cultura pop, não posições político-religiosas. Não tive intenção de ofender.

    Sobre usar ou não “toku”, já expliquei o que penso. É só um nome e eu já perdi essa. Assim como já perdi, junto com Sonia Luyten e outros, a tentativa de explicar que é “animê” e não “anime” a pronúncia mais aproximada do correto. Já fujoshi, otaku e otome são definições específicas. Podem mudar e estão sempre em mutação, mas é importante e didático registrar o que é comum, o que não é, o que é regra e o que é exceção.

    Por fim, se desejar “dar a palavra final”, fique à vontade. Eu não pretendo ficar postando mais aqui. Mas se quiser escrever pra meu email, continuamos o debate. (nagado@gmail.com)

    Enfim, quando puder passe no meu blog. O que sai aqui é uma amostra do que tem lá.

    Abraço.

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