Shozo Uehara e os Super-Heróis Japoneses

Texto: Alexandre Nagado

Durante décadas, um roteirista deixou sua marca em todas as franquias de super-heróis de tokusatsu, escrevendo e criando com a rapidez que a TV exige. Shozo Uehara nasceu em 6 de fevereiro de 1937, em Okinawa, região sul do Japão. Ele começou sua carreira na Tsuburaya Pro, participando das primeiras produções do estúdio criado pelo diretor de efeitos especiaisEiji Tsuburaya. Lá, além da série infantil do monstrinho Buusuka (1966), teve a chance de escrever dois episódios de Ultra Q (1966), mais dois em Ultraman (1966~67), onze emUltraseven (1967~68) e consagrou-se com vinte episódios (de um total de 51) de O Regresso de Ultraman (1971~72), a obra mais marcante de seus primeiros anos de carreira.

REVIRAVOLTAS E DECISÕES DRÁSTICAS

Nessa série, ele chocou o público com uma violenta história que mudou os rumos da produção. O herói Hideki Goh era um personagem mais humano que seus antecessores, com direito a namorada e uma vida social fora das missões. Porém, surgem os vilões chamadosOs Poderosos do Espaço, que descobrem sua identidade secreta e resolvem atacar sua parte humana no episódio 37. Eles matam a namoradaAkiko (Aki, no original) de modo brutal, espancando-a dentro de um carro e arrastando seu corpo pela rua. E depois atropelam o irmão mais velho dela, Sakata, que era deficiente físico. A brutalidade da sequência é impensável numa série atual, ainda mais infantil ou infanto-juvenil e só foi filmada porque não havia ainda o conceito de correção política ou de limites de violência visual. Desesperado e desequilibrado, Goh se transforma e é vencido pelos monstros, sendo levado ao espaço por naves para ser executado.

No episódio seguinte, quando tudo parecia perdido, surgem Hayata (Ultraman) e Dan Moroboshi (Ultraseven), que se transformam e salvam o irmão do perigo. A gloriosa (embora rápida) aparição dos dois heróis de séries anteriores ao som de suas músicas-tema foi emocionante e teve um efeito catártico depois de toda a desgraça e desesperança vistas. “Ultraman morre ao entardecer” e “Quando brilha a Estrela de Ultra” (eps. 37 e 38, respectivamente) eram vistos e revistos com o coração na mão, por motivos diversos.

A história por trás desse marcante episódio duplo remete a problemas acontecidos nos bastidores. Na época, os atores assinavam contratos por lotes de episódios, pois não se sabia se as séries fariam sucesso para ocupar um ano de programação. Claro que algumas séries são planejadas para um número limitado de episódios, mas a Tsuburaya pretendia uma série de um ano no canal TBS, mas não podia arriscar com contratos longos. Por isso, as renovações normalmente eram feitas a cada 12 ou 13 episódios. Quatro lotes desses formariam um ano de episódios semanais – 51 ou 52 ao todo, a meta idealizada pelos produtores para uma série bem-sucedida. Nisso, a atriz Rumi Sakakibara (Aki) fora convidada para trabalhar em outra produção e, sem saber se renovaria com a Tsuburaya para mais um lote de episódios, acabou aceitando. Quando decidiram renovar seu contrato, já era tarde e a personagem dela deveria ser retirada da série. Não se sabe por qual motivo (se pelo mesmo ou não), Mori Kishida (o irmão dela na série, Sakata) também saiu e coube a Uehara dar um fim nos dois. No enredo, com o pretexto de observar melhor a extensão do poder do segundo Ultraman, os Poderosos enviam os monstrosMarítimo (Seamons) e Estelar (Bemstar), que já haviam dado trabalho ao herói. O que se viu foi uma reciclagem de cenas antigas pra ganhar tempo, o que reforça a ideia de algo feito às pressas. Mas longe de ser uma aventura capenga, o que Uehara fez foi criar o mais impactante arco de histórias já feito numa produção de tokusatsu para TV até aquele momento, superando em drama a famosa crucificação de Ultraseven anos antes. Depois de O Regresso, vieram sete episódios em Ultraman Ace (1972~73) e mais dois em Ultraman Taro (1973~74).

ESQUADRÕES COLORIDOS, HERÓIS METÁLICOS E OUTROS

Sem contrato de exclusividade, iria ganhar ainda mais destaque na Toei Company. Trabalhou na adaptação para seriado tokusatsu do mangá Goranger (1975), deShotaro Ishinomori, que seria o embrião da franquia Super Sentai (e obviamente sua derivada Power Rangers), repetindo a dose com a série seguinte, JAQK (Jakkar, 1977). O escritor ainda adaptaria vários outros trabalhos de Ishinomori, como Inazuman (1973), o robozinho infantil Robocon (1974) e um herói já visto no Brasil, o Machine Man (1984). Sendo autor free-lancer, circulou por diferentes estúdios, como a lendária P-Productions (de Spectreman e Lion Man). Lá, escreveu, entre outros, Denjin Zavorger (1974), criação de Kazuo Koike, escritor dos mangás Lobo Solitário e Crying Freeman. Quando a Toei Company “se apropriou” das ideias de Ishinomori e estabeleceu o gênero Super Sentai com sua série Battle Fever J em 1979, chamaram Shozo Uehara para garantir o pique das histórias. Na franquia dos heróis coloridos, assinaria roteiros também em Denziman (1980), Sun Vulcan (1981) e Ohranger (1995).

Mas ele deixaria sua marca novamente com o icônico herói Uchuu Keiji Gavan (Policial do Espaço Gavan, de 1982), assinando 37 dos 44 episódios. Em Sharivan (1983), foram 41 de 51 e, em Sheider (1984), simplesmente todos os 48 episódios, sendo o responsável pela formatação e consagração do gênero Metal Hero.

Uehara assinou 42 das 46 aventuras de Jaspion (1985), onde mostrou muita versatilidade em histórias com desenvolvimento mais livre do que nas antecessoras, que obedeciam a uma estrutura mais rígida nas histórias. Se as séries eram divertidas, com heróis e vilões carismáticos, grande mérito é de Uehara. A série não foi um grande sucesso no Japão, ao contrário do Brasil, onde entrou pra História da TV e foi reprisado inúmeras vezes, estando hoje disponível em DVD.

Em Jaspion, Uehara teve que mostrar novamente jogo de cintura e reescrever histórias em cima da hora, antes das filmagens. Acontece que o ator principal, Seiki Kurosaki,estava envolvido com trabalhos no teatro quando foi escalado para a série. Com receio de prejudicar sua carreira (e conta bancária), Kurosaki conseguiu junto à Toei uma redução de sua carga de trabalho. Por um tempo, Jaspion deveria apenas aparecer transformado na maior parte do tempo, dispensando o ator de várias filmagens. Isso obrigou Uehara a criar um herói humano para ser coadjuvante e ajudar na condução dos enredos. Nascia entãoBoomerman (Boomerang), vivido pelo ator e dublê Hiroshi Watari. Mas o ator, que havia sofrido um acidente de moto num passeio, tinha pinos na perna que precisavam ser retirados até um certo prazo limite. Isso acabou fazendo a participação de Boomerman ser reduzida para apenas 6 episódios, retornando posteriormente para mais dois e fechar sua participação. Seiki Kurosaki acabou tendo que refazer seus planos para dedicar mais tempo a série e Uehara teve que reajustar vários episódios mais uma vez.

Também participou nos roteiros em Spielvan (1986) e Metalder (1987), mas seu outro grande destaque na década foi com os primeiros episódios deKamen Rider Black (1987), especialmente o primeiro que, dirigido porYoshiaki Kobayashi, apontou os rumos para a mais sombria série da franquia Kamen Rider até então. Em 1994, escreveu o especial de cinema que apresentou Kamen Rider J, herói capaz de ficar gigante, último personagem da franquia supervisionado por Shotaro Ishinomori, que faleceria em 1998.

DIMINUINDO O RITMO, MAS SEM PERDER A EMOÇÃO

Na segunda metade da década de 1990, Uehara já teria um ritmo de produção menor, já entrando em clima de aposentadoria. Em 1996, a série Ultraman Tiga fez renascer o interesse do grande público pela franquia Ultra e o clima era de total renovação. Passada em um universo paralelo, Tiga não fazia menção à existência dos Ultras clássicos, até o episódio 49 que teve Uehara como roteirista convidado. Em “A Estrela de Ultra“, descobre-se que no mundo onde se passa a história de Tiga, Ultraman é um seriado de TV. Em uma aventura com viagem no tempo, o protagonista Daigo vai parar no próprio estúdio Tsuburaya na década de 60, que se preparava para uma nova produção envolvendo monstros e um novo tipo de super-herói. Com grandes sacadas, Shozo Uehara homenageou seus velhos amigos do início de carreira, especialmente o diretor Eiji Tsuburaya, que acreditou em seu trabalho. Depois, ainda faria um roteiro em Ultraman Dyna (1997).

Em 2007, a série filipina Zaido apresentou uma não-oficial, porém autorizada, continuação de Sheider, onde um descendente do herói luta contra o clã maligno Kuuma. Uehara participou da equipe de criação e roteiro dessa obscura produção, dando ao menos alguma fidelidade ao trabalho, já que Sheider foi um seriado que ele escreveu do início ao fim. Autor versátil, acabou também fazendo letras de algumas músicas, incluindo o segundo encerramento de Spielvan.

Praticamente aposentado, atualmente Shozo Uehara está afastado da mídia. Tendo escrito e formatado séries inteiras, nunca foi considerado um dos grandes criadores do mundo do tokusatsu e muito menos da cultura pop japonesa. Mas fica aqui uma homenagem a esse profissional do texto que divertiu gerações inteiras escrevendo e reescrevendo histórias ágeis e dinâmicas dentro de prazos curtos e com muito profissionalismo.

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About Mozart

Vulgo Mozart Gomes é o Fundador , administrador e idealizador do Senpuu. Designer Gráfico, Mozenjaa é o responsável por todas as mudanças no layout do Senpuu, tanto as boas quanto as ruins. Fã de tokusatsu desde a era manchete, resolveu consumir diariamente todo o seu amor pelo tokusatsu, criando o Senpuu.

2 comments

  1. Ótima matéria, com certeza um dos melhores escritores de tokusatsu de todos os tempos.

  2. Boa Tarde
    Acredito que o ator Seiki Kurosaki não veio ao Brasil, por estar com medo da bruxa Kilza, Kilmaza e do Satã Goss, sendo as duas primeiras, as únicas, a neutralizar a sua energia e a primeira a tirar a sua transformação no episódio Pânico no balão, dando uma água batizada e enfraquecendo-o. Só venceu o terrível Satã Goss, porque as crianças invocaram o pássaro dourado e surgiu uma bela espada dourada que ele chamou de Daileon espadium lazer, além da ajuda de Edin, morrendo por ele, ele que foi criado pelo profeta.

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