Conan, O Bárbaro – Crítica

Conan, o Bárbaro (Conan, The Barbarian, 2011)

Ação – 113 min.

Direção: Marcus Nispel

Roteiro: Thomas Dean Donnelly, Joshua Oppenheimer e Sean Hood

Com: Jason Momoa, Stephen Lang, Rose McGowan, Ron Perlman e Rachel Nichols

Texto: Alexandre Landucci

De volta as telas depois de vinte e sete anos, Conan o guerreiro cimério criado por Robert E. Howard, é garantia de frases de efeito, sangue, suor, gritos de macho, decepamentos e uma grande quantidade de mulheres seminuas ou com pouca roupa.

Se o cardápio te agrada (ou não te ofende) Conan, o Bárbaro é um prato cheio. Longe de ser a definitiva versão de um filme sobre guerreiros bárbaros no cinema, o filme de Marcus Nispel (aquele mesmo dos horrendos Desbravadores e do remake de Sexta-Feira 13) é uma versão mais sangrenta do filme original dirigido com mão pesada por John Milius e que apresentou ao mundo um austríaco bombado chamado Arnold Schwarzenegger.

Isso quer dizer que o filme é bom? Não, apenas que entrega exatamente aquilo que parecia oferecer. Seqüências violentas (mesmo) entre guerreiros, uma profusão de sangue falso, uma história rasa e óbvia que serve apenas para unir as muitas seqüências de ação e personagens bi-dimensionais, como manda a cartilha do filme de ação genérico.

Apresentando um prólogo que introduz rapidamente – mas de forma eficiente – o background em que a história irá se passar, o filme logo parte para apresentar seu personagem principal, literalmente, desde o seu nascimento em um mar de sangue. Apostando na óbvia história do garoto folgado, mas brilhante que precisa provar sua capacidade antes de se transformar em um guerreiro, Conan – o Bárbaro, começa, apesar de extremamente óbvio, com um ótimo ritmo, com grandes seqüências de ação e aquela dose de comédia involuntária típica de produções assim.

Por isso é importante ressaltar a primeira sequencia de ação em que vemos o garoto Conan enfrentando uma horda de guerreiros quase bestiais, retratados como feras em busca de sangue. Destaque para os efeitos sonoros que transformam os adversários em legítimas feras, graças ao uso de urros de animais como forma de comunicação desses adversários. Assim como Zack Snyder fez em 300, Nispel também usa da metáfora do garoto largado na floresta que tem de enfrentar os lobos para provar que é homem. Diferente do filme dos espartanos, Nispel filme tudo de forma realista e não tem pudor em atirar o balde de sangue no rosto do espectador.

Infelizmente, após um primeiro ato bastante empolgante e que prometia muito mais, o filme cai na vala comum do filme de vingança, temperado pelo exótico mundo do guerreiro cimério. Também atrapalha, o fato de Jason Momoa ser um ator profundamente limitado, e que repete sem muito pudor as caras e bocas do personagem Khal Drogo de Game of Thrones. Porém, diferente de Schwarzenegger no filme original, o Conan de Nispel/Momoa é mais do que apenas um troglodita bebedor de hidromel. O personagem é capaz de criar uma estratégia de ataque/vingança interessante (apesar de profundamente óbvia) e até de se afeiçoar verdadeiramente por uma mulher.

Stephen Lang, vive o Tulsa Dum da vez. Khalar Zym é um homem obcecado pela vingança (como Conan) e que não mede esforços para  conseguir o que quer. Em suma, é a versão bárbara do coronel Miles de Avatar. Raso e vazio, como Tulsa também era, mas acompanhado de uma série de capangas que são igualmente patéticos e de visual quase orc.

O elenco feminino é todo muito fraco. Se Tamara (Rachel Nichols) transforma-se de monja sábia e contida em guerreira hábil com uma espada três vezes mais pesada que ela, Rose McGowan consegue o impossível. Consegue ser mais exagerada e patética do que o próprio Conan, surgindo aqui como uma feiticeira que parece ter muito menos poder do que acredita ter. Verdadeiramente, Marique parece ser uma eximia provadora de sangue humano, ser capaz de criar soldados de areia genéricos e que surgem na tela e somem sem deixar a menor marca e de ter roubado a luva – aqui transformada em garras/unhas – de Freddy Krueger.

O que poderia salvar Conan, de tal qual uma montanha russa, despencar ladeira abaixo, seriam as lutas, o tal barbarismo. A exceção da sequencia inicial já citada, todas as demais são mal fotografadas – Nispel parece não entender que precisamos ver aqueles personagens verdadeiramente lutando e não se esbarrando com as espadas – e cansativas. Prestem atenção na longuíssima cena que envolve os personagens lutando contra uma espécie de monstro marinho (que jamais é mostrado de forma convincente, para nos passar a sensação de medo ou tensão) e notem que no fim, o que Nispel fez foi nada diferente do que Príncipe da Pérsia, ou Fúria de Titãs remake, ou o pai desse tipo de sequencia de ação, Piratas do Caribe, já fez. Saltos no vazio, mudanças de posição nos cenários, a falta de credibilidade de que aqueles personagens podem realmente morrer, acrescidas aqui de sangue de mentira soando como uma fase perdida de God of War.

A direção de arte por sua vez, é inteligente ao não querer inventar a roda. Mistura uma série de características vistas em diversas civilizações para transformar cada um dos cenários visitados pelo filme em um lugar único. A aldeia de Conan parece saída de uma fantasia medieval – algo próximo de Coração Valente ou Highlander. A fotografia nessa primeira parte do filme auxilia a intenção do diretor em caracterizar a aldeia do personagem como um lugar sem luz, sem esperança e frio. Um lugar onde a espada e a batalha fazem parte do dia a dia do povo. O exército de Khalar Zym por outro lado, é uma mistura persa/romana. Khalar usa uma cimitarra dupla (que com o decorrer do filme descobrimos que são duas espadas) arma típica dos mouros, enquanto o exército tem armaduras e escudos que remetem aos romanos e capacetes que lembram os dos exércitos persas. O palácio do vilão também abusa da salada histórica. Colunas gregas, torres orientais e masmorras européias, tudo junto no mesmo ambiente.

O que poderia ser visto como uma falta de personalidade de quem é responsável pela direção de arte e design de produção, é na verdade, uma escolha inteligente que sedimenta o mundo de Conan na nossa própria historia, já que facilmente reconhecemos as referencias históricas utilizadas pela produção do filme.

Conan, o Bárbaro, é um longa genérico e óbvio. O espectador adivinha cada passo da aventura do guerreiro cimério desde o primeiro take da produção de Nispel. Em relação ao original, que envelheceu muito mal, ganha pontos por apresentar um personagem mais interessante e que não é apenas um ogro com uma espada, mas perde e muito, sem a trilha épica de Basil Pouledouris (substituída aqui por uma trilha óbvia de Tyler Bates) ou a capacidade de Milius para criar combates verdadeiramente épicos e grandiosos. Se o Conan/Schwarzenegger encontrasse o Conan/Momoa na rua, talvez lutariam até o fim dos tempos, sem jamais encontrarmos um vencedor.

Nota

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About Mozart

Vulgo Mozart Gomes é o Fundador , administrador e idealizador do Senpuu. Designer Gráfico, Mozenjaa é o responsável por todas as mudanças no layout do Senpuu, tanto as boas quanto as ruins. Fã de tokusatsu desde a era manchete, resolveu consumir diariamente todo o seu amor pelo tokusatsu, criando o Senpuu.

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