O Tigre e o Dragão [Crítica]

Mozart September 24, 2010 7

Texto: Alexandre Landucci

Ang Lee é um dos diretores mais interessantes de sua geração. Em sua carreira construiu dramas intimistas, filmes de época, romances gays e até um filme de artes marciais, que era mais (como em boa parte de sua filmografia) do que parecia ser sua fachada simplista.

O “tal” filme de artes marciais é o Tigre e o Dragão, que na superfície é um simples filme de roubo. Temos um casal – que se ama mais que não se envolve – e uma ladra. O homem (Li Mu Bai, vívido por Chow Yun Fat) deseja abandonar sua vida de guerreiro e para tanto pede a sua amiga e paixão platônica Shu Lien (Michelle Yeoh) que leve de presente sua espada, a um velho amigo, para que essa permaneça num lugar que respeite a história da arma. Quando Lien entrega a espada, conhece uma jovem garota (a ladra, Jen Yu – num dos primeiros papéis de Zhang Ziyi no cinema) que é filha do governador e que está prometida a um casamento que desgosta. Além disso, ela esconde um segredo. Treinou por dez anos com a furtiva assassina conhecida como Raposa de Jade (Pei-pei Cheng) e envolveu-se num tórrido romance com um nômade do deserto (Lo, vívido por Chen Chang). Provando ser irresponsável e viciada em adrenalina resolve roubar a espada dando origem à perseguição do casal a garota e por conseqüência confrontos espetaculares com ela e sua mestra.

O que faz de O Tigre e o Dragão ter seu lugar gravado na história do cinema é a capacidade de Lee e sua equipe que conseguiram deixar palatável para um público ocidentalizado uma típica história oriental, cheia de desencontros, sutilezas e relacionamentos trágicos. Lee, um excelente diretor quando a emoção é o elemento básico de sua “brincadeira” ousa aqui ao juntar a estética dos filmes de Hong Kong a sua panela.

O chamado “wire fu” – que causou choque aos ocidentais não acostumados com isso – é conseguido através do uso de cabos que içam os atores como marionetes para que esses pareçam voar em tela. Quando lançado em circuito mundial, causou estranheza aos olhos acostumados com seqüências de ação vertidas de sangue, tiros e cortes de câmera abruptos. O “wire fu” – que depois foi tolamente copiado ad nauseum pelos ocidentais, banalizando a técnica – contrapõe essa idéia americanizada de condução da ação. Tudo é feito com elegância, classe e destreza. Como se a cada movimento dos espadachins não presenciássemos golpes, mas passos de um balé mortal, como praticantes de tai-chi coreografando cada movimento como uma peça orquestrada. Um cuidado que aos olhos acostumados aos hormônios do cinema pipoca americano, pode ter assustado.

Existe todo um cuidado minucioso em cada aspecto da produção, a direção de arte (Eddy Wong, Xing-Zhang Yang e Zhanjia Yang) – por exemplo – é sutil ao inserir o espectador no período em que o filme se passa, mas é suficientemente inteligente para perceber que quanto mais fossem exagerados com os objetos de cena e cenários, mais afastariam o espectador do que seu diretor queria verdadeiramente mostrar: seus atores e suas magníficas coreografias. Por isso tudo é simples, e com aparência de uso e verdadeiro. Mesmo os figurinos (Tim Yip) seguem o “clean” da direção de arte. Quimonos claros, ou vestes escuras. Apenas a personagem da mulher do governador ousa um pouco mais, com o uso de cores mais fortes, como vermelho e rosa. Outro acerto, pois coloca aquela personagem como estranha naquele meio. Alguém que verdadeiramente não pertence aquele mundo de lutas e batalhas.

Outro destaque técnico é a deslumbrante fotografia de Peter Pau. Além de esteticamente ser irrepreensível sabendo dosar com parcimônia os claros e escuros e destacar determinadas cores para ilustrar o que seu diretor queria dizer (exemplo claro é a batalha sobre os bambus, onde o verde – que até então não se destacava – “grita” na cara do espectador, realçando a condição de quase magia que a cena quer passar) tem paciência para, nas seqüências de ação, mostrar o que acontece em tela, apesar de cada batalha ser formada de inúmeros movimentos. O espectador não perde um detalhe, um movimento, e Peter – com o aval do diretor evidentemente – ainda consegue diferenciar cada “briga” com sua câmera. Na primeira, noturna, a condição da velocidade e do campo aberto é valorizada, a batalha no bar é ajudada pela quantidade de cadeiras e mesas transformando cada ação em um eventual clímax, enquanto a já citada batalha do bambuzal é onírica e poética, com a bela trilha de Tan Dun atingindo seu auge.

Mas todos esses detalhes técnicos soariam vazios se Ang Lee não conseguisse o que poderia parecer impossível. Misturar o romance trágico com espadachins voadores parecia uma tarefa hercúlea, mas Lee foi humilde o suficiente para não se encantar com a beleza do visual das batalhas do “wire fu” e montou seu filme como seus trabalhos anteriores. Em primeiro plano estão aqueles personagens e aquela história, sendo cada batalha um reflexo do momento emocional de cada personagem. Mu Bai, que é apresentado como um homem em paz e convencido de sua “aposentadoria” luta quase como um dançarino. Esquiva-se e ataca com precisão cirúrgica atingindo o adversário com menor esforço possível. Já a irascível Jen ataca com rapidez mas sem método, desastrada, apesar de mortal. Reflexo de sua fragilidade emocional. Já sua mestra Raposa de Jade ataca sutilmente. Ao usar do artifício das agulhas envenenadas predispõe acreditarmos que ela evitaria um confronto direto se pudesse. Reflexo de sua personalidade ardilosa e vilanesca.

Lee foi inteligente ao usar esse recurso não afugentando do filme seus fãs que poderiam estranhar ver o diretor num filme – dito – de artes marciais. Porém o Tigre é muito mais do que somente um exemplar do cinema de ação made in Hong Kong, é o mais bem acabado exemplar da junção entre esse cinema com a densidade encontrada no cinema de arte, misturando com magia Wo-Ping Yen (responsável pelas coreografias de luta) com um exemplar de uma clássica história de amor perdido, como Romeu e Julieta por exemplo.

Além disso, o sucesso mundial do filme abriu portas para outros cineastas do circuito de arte se aventurarem no cinema de ação. O maior exemplo disso é Zhang Yimou, famoso por filmes como Lanternas Vermelhas que “pariu” Herói, Clã das Adagas Voadoras e Maldição da Flor Dourada, todos misturando histórias trágicas com o melhor dos cabos do mestre Ping Yen.

Tigre e o Dragão mostra-se então, além de um tremendo filme, um marco para a cinematografia mundial, pois uniu com grande sucesso dois opostos até então tão distantes como água e óleo, apresentando para o grande público o melhor das artes marciais com o recheio de uma grande história de amor.

7 Comments »

  1. ?Goh? September 24, 2010 at 23:36 -

    O Tigre e o Dragão é muito fods! Pancadaria, mas com um baita estilo! Deixo aki minhas sugestões para as próximas análises: The Last Airbender, Cloverfield – Monstro, Matrix Trilogia e The Karate (ou seria Kung Fu?) Kid! FLW!

  2. Ed September 25, 2010 at 09:42 -

    Muito interessante a critica, pena que mesmo assim não consigo ver “graça” nesse filme, pra mim o Chow Yun fat fica melhor de inspetor tequila, como foi escrito na critica esses filmes ja saturaram o mercado, e na minha opinião, não acrescentam nada de um para o outro, na verdade de filmes nesse estilo fico mesmo com Shinobi: A Batalha, talvez pelo fato de ser uma especie de adaptação do anime Basilisk…..agora mesmo que filmes de terror extremamente trash, como o Tokyo Gore Police, não venham a receber uma critica, to aqui com um filme em mente, para deixar como sugestão, só espero que ele venha a passar nos cinemas brasileiros…..vamo ver o que a Paramount decide…..

  3. Ariana L. Prestes September 27, 2010 at 10:22 -

    É concordo com o post.
    O Tigre e o Dragão foi um marco para o cinema (sem exageros), a fotografia, cenas de luta, enredo… Tudo é fantástico. Sem comparação com os filmes anteriores. Foi a obra revolucionária para o gênero.
    Existe um grande preconceito a respeito de filme sobre artes marciais (até pelas idéias de roteiro que não eram as mais brilhantes)… Mas O Tigre e o Dragão não pode ficar de fora em uma “estante” onde fica DVDs como: Clube da Luta, Cães de Aluguel, Poderoso Chefão, Amélie Poulain, The Good The Bad and The Ugly, Menina de Ouro, Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, O Exorcista, O Aviador, Rei Leão… A propósito… Isso é um pouco do que guardo na minha estante.
    Acho que não existe gênero para aquele que ama cinema.

    Parabéns pela homenagem.

  4. Genésio September 27, 2010 at 16:34 -

    Ariana, eu te amo.

  5. Gothic September 27, 2010 at 20:09 -

    nossa é um filme muito bom; sempre que passa eu assisto ele, é muito intressante.

  6. Edi September 27, 2010 at 22:18 -

    Eu gosto desse filme principalmente pela história, para mim, e isso é pessoal, ele é melhor que O Gladiador, tem mais conteúdo, enquanto O Gladiador que levou a estatueta do oscar é mais hollywoodiano e tem uma história menos trabalhada já que o filme tenta mostrar o glamour das batalhas nas arenas. o Tigre e o Dragão é mais leve é uma história, uma lenda sobre amores impossíveis, mas é uma questão de gosto, preferência nada de mais.

  7. Aderson October 16, 2011 at 19:43 -

    Filme lindo e bem dirigido.

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